Em declarações à Lusa, após o encontro que aconteceu na sexta-feira e foi posteriormente divulgado nas redes sociais, o deputado socialista Luís Testa explicou, por telefone, que este se enquadrou na relação de longa data entre os dois partidos, que integram a Internacional Socialista, sublinhando que não houve “nenhuma extraordinariedade” na realização da reunião.

“O [Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde] PAIGC é um partido com o qual o [Partido Socialista] PS tem relações desde há muitos anos e com o qual mantém os propósitos do ponto de vista da defesa do Estado de Direito, do progresso dos países, do desenvolvimento económico e social muito semelhantes”, afirmou.

O deputado explicou que, embora este tenha sido o primeiro encontro com o presidente do PAIGC, Domingos Simões Pereira, desde os “acontecimentos recentes na Guiné-Bissau”, não se tratou do primeiro contacto recente entre os dois partidos, que, segundo sublinhou, são frequentes.

Segundo Luís Testa, durante a reunião foram transmitidos ao PS “acontecimentos, dados e pormenores” sobre a situação na Guiné-Bissau, que suscitaram “uma preocupação acrescida”.

“Não é segredo para ninguém que a Guiné-Bissau não vive um momento de normalidade”, declarou, considerando que a situação atual é “absolutamente extraordinária do ponto de vista da relação democrática entre o Estado, os cidadãos e as organizações políticas”.

Nesse sentido, defendeu que “a normalidade democrática, o Estado de direito democrático e os princípios constitucionais devem ser preservados com grande afirmação por parte daqueles que defendem esses elementos”.

O membro da direção nacional do PS ressalvou, contudo, que o seu partido não pretende interferir nos assuntos internos da Guiné-Bissau.

“[Atuamos] Sem de alguma forma termos a tentação ou a leviandade de cometermos ingerências naquilo que são as autonomias e as independências dos poderes da Guiné-Bissau”, afirmou, defendendo simultaneamente que os direitos humanos devem ser protegidos.

O deputado disse ainda que o PS reitera o seu desejo de que a Guiné-Bissau possa “voltar à sua normalidade democrática”.

Além de membros do PAIGC, participaram na reunião o líder do Movimento Democrático Guinenese – que também faz parte da coligação PAI – Terra Ranka -, Silvestre Alves, bem como o líder parlamentar do Movimento para a Alternância Democrática (Madem-G15), Abdu Mané.

Para Luís Testa, a participação de diferentes forças políticas demonstra que a dinâmica ultrapassa o próprio PAIGC.

“Portanto, isto já se tornou de facto um movimento que vai muito para além do PAIGC, ainda que liderado pelo Domingos Simões Pereira, como figura charneira”, sustentou.

Por fim, salientou ainda que o PS está disponível para manter contactos com as diferentes forças políticas que defendam princípios democráticos.

Os militares tomaram o poder em 26 de novembro de 2025 na Guiné-Bissau e substituíram o parlamento por um Conselho Nacional de Transição (CNT).

Uma das primeiras medidas do Conselho foi a alteração da Constituição, que passa a dar mais poderes ao Presidente.

No próximo dia 30, os guineenses serão chamados a pronunciarem-se sobre a entrada em vigor da nova Constituição nos moldes em que o documento foi proposto pelo CNT.

O referendo sobre a nova Constituição ocorrerá cerca de três meses antes das novas eleições gerais, presidenciais e legislativas, a 06 de dezembro.

Os guineenses foram a eleições em 23 de novembro de 2025, mas acabaram interrompidas, sem a divulgação dos resultados, por um golpe de Estado em que os militares tomaram o poder.

A oposição considerou tratar-se de um “golpe palaciano” e de “uma encenação” do anterior Presidente, Umaro Sissoco Embaló, que concorreu a um segundo mandato.

O candidato da oposição, Fernando Dias da Costa, reclamou vitória na primeira volta, apoiado pelo PAIGC que, pela primeira vez, foi impedido de ir a eleições por decisão judicial.

O presidente do histórico PAIGC, Domingos Simões Pereira, considerado o principal líder da oposição, foi detido no golpe de novembro, posteriormente colocado em prisão domiciliária e mais tarde detido novamente na 2.ª Esquadra de Bissau.

O político, que é igualmente presidente eleito do parlamento guineense, foi libertado, tendo viajado para Portugal para receber tratamento médico.

Simões Pereira está a ser investigado pelo Tribunal Militar e é considerado suspeito de participação numa alegada tentativa de golpe de Estado em outubro de 2025, um mês antes das eleições gerais e do golpe militar consumado.

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