Dividem-se as opiniões quanto ao alegado ato de vandalismo no gabinete do líder do Chega, André Ventura, na Assembleia da República. Se o primeiro-ministro, Luís Montenegro, considerou tratar-se de algo “inconcebível numa democracia madura”, o ex-deputado do Partido Comunista Português (PCP) Miguel Tiago atirou que Ventura está “a menosprezar a inteligência dos portugueses em geral”. Afinal, que foi dito?
“Aquilo que eu posso dizer é que, se houve algum ato de vandalismo, ele deve ser naturalmente investigado e os seus responsáveis devem ser responsabilizados. Isso é inconcebível numa democracia madura como é a democracia portuguesa”, indicou o primeiro-ministro, à margem de uma iniciativa em São João da Madeira.
O chefe do Governo complementou que, uma vez que se trata de um ato cometido nas instalações de um órgão de soberania, esse trabalho de investigação deve ser ainda mais “rápido e conclusivo”, por forma a “erradicar qualquer tentação mais extremista em termos de ataque aos esteios do sistema democrático e ao respeito daqueles que representam a vontade política do povo português”.
O secretário-geral do Partido Socialista (PS), José Luís Carneiro, frisou que “as autoridades judiciárias devem proceder à averiguação e às investigações o mais rápido possível, para esclarecer, efetivamente, aquilo que se terá passado no gabinete de André Ventura”.
“Eu fui deputado e sou deputado. O meu gabinete esteve sempre fechado à chave quando não me encontrava no gabinete, que é, aliás, um procedimento de segurança pessoal”, alertou.
A presidente da Iniciativa Liberal, Mariana Leitão, também se mostrou preocupada com o alegado ato de vandalismo, que “tem de ser investigado”.
“É óbvio que é uma situação que me preocupa, é óbvio que isto tem de ser investigado e tem de ser percebido quais foram as eventuais falhas de segurança que ocorreram”, disse Mariana Leitão, em declarações à imprensa.
Para a líder dos liberais, caso se confirmem falhas de segurança, terão “de ser corrigidas”.
“A Assembleia da República é um espaço onde trabalham as forças políticas, onde trabalham muitas pessoas e onde obviamente tem de haver uma confiança na inviolabilidade dos espaços que ali estão”, disse, defendendo que o incidente seja investigado até “ao mais pequeno detalhe para se conseguir perceber as causas, a origem e fazer as correções que sejam necessárias fazer”.
Por outro lado, o comunista Miguel Tiago foi uma das vozes céticas quanto à veracidade do ataque. O antigo parlamentar recordou, inclusive, que “a segurança do Parlamento é feita pela Polícia de Segurança Pública e Guarda Nacional Republicana”, pelo que “todos os que entram ficam registados”.
“Ventura goza com a cara dos portugueses com a ajuda de todos os órgãos de comunicação social que se prestam a esse serviço”, escreveu, na rede social X (Twitter).
Ventura gozou sempre da bonomia de uma comunicação social deslumbrada e de uma amargura coletiva com o estado do país. Mas agora está a apostar demasiado na imbecilidade do seu eleitorado e a menosprezar a inteligência dos portugueses em geral.
— miguel tiago (@migueltiago) July 28, 2026
Mais tarde, o ex-deputado lançou que “Ventura gozou sempre da bonomia de uma comunicação social deslumbrada e de uma amargura coletiva com o estado do país”, considerando que, “agora, está a apostar demasiado na imbecilidade do seu eleitorado e a menosprezar a inteligência dos portugueses em geral”.
Também o ex-dirigente e deputado do partido CDS-PP Francisco Mendes da Silva se pronunciou naquela rede social, tendo lembrado o Artigo 366.º do Código Penal Português, referente à simulação de crime, no qual “quem, sem o imputar a pessoa determinada, denunciar crime ou fizer criar suspeita da sua prática à autoridade competente, sabendo que ele não se verificou, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias”.
Só para lembrar. pic.twitter.com/UXEtC8qX2X
— Francisco Mendes da Silva (@fmendesdasilva) July 28, 2026
“Se o facto respeitar a contraordenação ou ilícito disciplinar, o agente é punido com pena de multa até 60 dias”, lê-se ainda.
Já o jornalista e comentador Daniel Oliveira indicou que, “se houve uma quebra de segurança no Parlamento, é grave”, mas que, “se não houve, é muito mais grave”, ao partilhar uma notícia que dava conta da presença do deputado do Chega Francisco Gomes no local, para filmar um TikTok.
“Milagres cénicos”, ironizou, referindo-se a uma fotografia de uma moldura de Nossa Senhora de Fátima caída no chão, com um terço por cima.
Milagres cénicos. pic.twitter.com/r0jh9nftNc
— Daniel Oliveira (@danielolivalx) July 28, 2026
Recorde-se que, esta manhã de terça-feira, André Ventura denunciou que o seu gabinete terá sido alvo de vandalismo
“Assim está o meu gabinete esta manhã na Assembleia da República. Alguém estava à procura de alguma coisa e não se coibiu de agir dentro do próprio Parlamento. Não sei ainda se foi roubado algum documento ou não, mas atingimos o grau zero da nossa democracia”, escreveu, divulgando um vídeo no qual o chão da divisão se encontrava repleto de documentos.
Já em declarações à imprensa, o líder do Chega reiterou que “alguém lá se introduziu [no gabinete], vandalizando o próprio gabinete e levando também algumas coisas que estavam no gabinete”.
Assim está o meu Gabinete esta manhã na Assembleia da República. Alguem estava à procura de alguma coisa e não se coibiu de agir dentro do próprio Parlamento. Não sei ainda se foi roubado algum documento ou não, mas atingimos o grau zero da nossa democracia. pic.twitter.com/Ar5YS52b3a
— André Ventura (@AndreCVentura) July 28, 2026
“Um dos lotes dos documentos que desapareceram estavam numa das pastas que estão logo em cima da mesa e que se referiam à comissão parlamentar de inquérito a Luís Neves”, detalhou. Já outros dados “tinham que ver com informação política relacionada com o gabinete do primeiro-ministro e já tinham mais de um ano”.
De acordo com a Lusa, Ventura recusou que se tenha tratado de uma encenação.
A Polícia Judiciária (PJ) confirmou ao Notícias ao Minuto que “tomou conta da ocorrência” e que está “a desenvolver diligências através da Unidade de Contraterrorismo”.
Imagens das câmaras de videovigilância no exterior estão a ser analisadas pelas autoridades. O Notícias ao Minuto aguarda esclarecimentos por parte da Assembleia da República quanto à vigilância do interior do edifício.









